Médicos Estrangeiros - Eles apenas querem ajudar

21:07:00 1 Comments A+ a-



*Alan Junior de Queiroz
Para sanar a falta de médicos em algumas regiões do Brasil, por vezes lugares remotos, o Ministério da Saúde autorizou a entrada de médicos estrangeiros no país.  No dia 21 de agosto de 2013, o governo assinou um termo de cooperação com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) e criou o programa Mais Médicos. A importação de médicos virou polêmica entre as entidades médicas, pois o programa permite a atuação sem a necessidade de fazer o exame de revalidação do diploma, o Revalida.

O programa Mais Médicos é um das poucas iniciativas do governo que merecem ser elogiadas – e aplaudidas de pé. Milhares de pessoas, diariamente, definham na porta de hospitais e postos de saúde à procura de atendimento. Para resolver esse problema, foram abertas 15 mil vagas para médicos brasileiros, desse total, apenas, 1.090 vagas foram preenchidas. O governo decidiu que as 13.910 vagas restante poderiam ser completadas por médicos de outras nacionalidades ou brasileiros que se formaram em outros países.

Inscreveram-se no Mais Médicos profissionais de vários países. Mas, por motivos não tão claros, o grupo de médicos cubanos foi recebido com protestos, atos de xenofobia, racismo e preconceito. Foram rechaçados com gritos, xingamentos e vaias. Vale lembrar que eles só vieram ao Brasil para trabalharem nos lugares onde os médicos brasileiros se recusam a irem. A ignorância brasileira foi divulgada em todos os veículos de comunicação.

A jornalista Micheline Borges, através de uma rede social, conseguiu ultrapassar os limites do bom senso e respeito. “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõe a partir da aparência. Coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja O nosso povo!”, postou a jornalista. Se o Brasil fosse um país mais sério, os conselhos que regulamentam as profissões de médicos e jornalistas tinham cassado, imediatamente, os registros desses profissionais que representam a “escória humana”.

Depois que assistimos, ouvimos e lemos esses episódios lamentáveis, no fundo da nossa consciência uma voz sussurra bem baixinho: “não dá vergonha de ser brasileiro?” Na verdade, eu não tenho vergonha de ser brasileiro, tenho vergonha do que fizeram com o Brasil. Tenho vergonha daqueles que desviam o dinheiro público, tenho vergonha da população não saber escolher seus representantes, tenho vergonha em saber que milhares de pessoas estão morrendo à espera de atendimento médico, tenho vergonha em saber que existem pessoas vivendo em condições miseráveis, tenho vergonha de saber que o sistema educacional no Brasil está falido. Eu apenas tenho vergonha.

De um lado uma população carente de atendimento médico, e do outro, interesses pessoais, econômicos e ocultos sendo colocados em primeiro lugar por uma classe de profissionais que grita por melhores salários e condições de trabalho. Para a maioria das entidades que representam os médicos brasileiros, o Mais Médico cria um círculo vicioso, desvaloriza a profissão e agrava a falta de incentivo para a ida de médicos formados no país para o interior. Os críticos da iniciativa do governo, com certeza, não fazem uso de médicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

A entrada, em especifico, de médicos cubanos no Brasil para compensar a falta de profissionais já aconteceu antes. Há 15 anos, o governo brasileiro importou, segundo estimativa do Conselho Regional de Medicina (CRM), 140 médicos cubanos para atuarem no Tocantins - 34 desses médicos conseguiram revalidar seus diplomas e continuam no país até hoje. O acordo com Cuba durou 7 anos, até que Ministério Público do Trabalho conseguiu fazer a devolução dos médicos, em 2005, alegando falta de regulamentação com CRM.

Os médicos cubanos tem um histórico de desvalorização na ilha onde vivem. São explorados, ganham pouco, trabalham muito e são usados como fonte de renda do regime militar dos irmãos Castro, que desde 1959 instalaram o comunismo no país insular. Mas isso, por si só, não caracteriza trabalho escravo. O perfil dos profissionais que chegaram – e ainda vão chegar – de Cuba e vão trabalhar, repetindo: nos municípios onde médicos brasileiros se recusam a irem; 89% tem mais de 35 anos, 84% têm mais de 16 anos de experiência em medicina, 100% já cumpriram missão em outros países e tem especialização em Medicina Familiar e Comunitária.

Entre as reivindicações que se espalharam pelo Brasil em junho, saúde de qualidade era uma das alas mais expressivas. O governo, na medida do possível, vinha tentando maquiar uma situação que só piora. Alguma medida teve que ser tomada. A contratação desses médicos é uma forma de ampliar o atendimento e diminuir o sofrimento de muitos brasileiros – e tudo isso em curto prazo. Segundo estimativas preliminares do Ministério da Educação, 90% dos médicos estrangeiros que estão em solo brasileiro, passaram por provas do Mais Médicos e foram aprovados. Eles já estão preparados para atuar e devem começar a trabalhar no dia 23 desse mês.

Segundo os resultados de uma pesquisa do instituto MDA encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada no começo de setembro, 73,9% dos entrevistados aprovam a vinda de médicos estrangeiros para atuar no SUS. E, na opinião de 49,6%, o Mais Médico vai solucionar problemas crônicos do sistema público de saúde, já que o programa não permite que os estrangeiros troquem os locais que foram designados. Outro problema citado pelos entrevistados é a falta remédios nas farmácias públicas.

Se as entidades médicas querem “medir” capacidade profissional, devem começar aplicando uma avaliação nos médicos formados no Brasil. Médico ruim tem em todos os países. O fato de um médico ter concluído seu curso de medicina (aqui no Brasil) não quer dizer que ele é capaz de atestar se está apto para desenvolver suas atividades.

A meia dúzia de médicos que hostilizaram colegas estrangeiros, que chegaram ao Brasil para salvar vidas, nos revelou, paralelamente, que a educação brasileira também precisa de mudanças. Por outro lado, é um grande progresso num dos maiores problemas do país: saúde publica. Mas ainda faltam investimentos, implantação de metas, seriedade, profissionalismo, respeito com os pacientes – e muito amor pela profissão. Os médicos estrangeiros chegaram para ajudar. E, é bom salientar que eles não estão tirando o lugar de ninguém – muito pelo contrário.

 *Alan Junior de Queiroz é estudante de Comunicação Social - Jornalismo da Faculdade do Norte Pioneiro(Fanorpi).

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crepusculo
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1 de janeiro de 2014 12:01 delete

Boa tarde Alan, venho agradecer as publicações feitas aqui no seu blog. Após uma leitura minuciosa de vários blogs me deparei com este , que por sinal aborda aspectos do dia a dia, de forma imparcial e critica. Desde já parabéns por esse raro cabedal intelectual .

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