Boas intenções não são suficientes

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*Alan Junior de Queiroz

O Ministério da Saúde lançou no começo de junho uma campanha de prevenção às doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Até aí nenhum problema, certo? Só que a campanha trazia profissionais do sexo como protagonistas e isso gerou certo desconforto. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha (possível candidato do PT ao governo de São Paulo nas eleições do ano que vem) logo se pronunciou sobre a campanha afirmando que o material não tinha o seu aval e que "enquanto for ministro, campanhas assim não vão passar pelo ministério". Ooops! Mas essa passou.

A campanha do combate as DSTs vinculada ao Dia Internacional das Prostitutas, comemorado dia 2 de junho, é mais um erro do governo. A reação contra da população foi expressiva, tanto que o ministro mandou recuar. Mais dinheiro público sendo incinerado pela incompetência. Só no mês de maio (2013), o ministério gastou 10 milhões de reais numa campanha que trazia uma informação equivocada sobre planos de saúde, teve de suspender e corrigir. Na internet é possível encontrar comparações com outras iniciativas frustradas, como por exemplo, o Kit Gay, que também causou tumulto pela ousadia – e não serviu pra nada.

O Kit Gay era um “material educativo” composto de vídeos, boletins e cartilhas sobre o universo dos adolescentes homossexuais, que foi distribuído na rede pública de ensino para alunos e professores, com o objetivo de combater a homofobia. O Ministério da Educação (MEC) resolveu distribuir o material após realizar uma pesquisa e concluir que existiam quadros de tristeza, depressão, baixo rendimento escolar, evasão e suicídio entre os alunos gays, da 6ª à 9ª séries, vítimas de preconceito. Apesar de não ter sido bem aceito tinha boas intenções. Mas boas intenções não são suficientes. Assim como a campanha envolvendo prostitutas, a repercussão foi ruim. A presidenta Dilma Rousseff teve de vetar o kit anti-homofobia do MEC.

O governo foi infeliz com a maneira que abordou o combate as DSTs. Pelos comentários ácidos publicados na internet, nota-se que as pessoas tiveram interpretações distintas. As mais comuns são que: o governo passou a ideia que todas as prostitutas têm algum tipo de doença. O governo passou a impressão que só pessoas que fazem programas sexuais contraem doenças. O governo estava, de uma forma ou de outra, incentivando a prostituição. O governo estava tentando destruir os valores morais e religiosos, entre outras. Lógico que não foi nenhuma dessas a intenção do governo. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha tentou nortear a situação envolvendo essa classe polêmica. Declarou que é um grupo bastante vulnerável devida à promiscuidade. Tentou corrigir, mas já era tarde demais. A semente a discórdia já estava plantada e germinando as mais diversas reações.

Qual o problema em uma mulher querer ser prostituta e essa classe protagonizar uma campanha do governo? Nenhum problema. Mas afirmar que essa condição humilhante de vida é satisfatória, isso é inaceitável. O slogan: 'Sou feliz sendo prostituta' chega ser uma afronta. Ninguém é feliz sendo prostituta.  Desde quando ter dezenas de relações sexuais durante uma noite com pessoas desconhecidas, correr risco de vida ou de contrair uma doença é felicidade? Além de a pessoa ficar desmoralizada perante a família e sociedade.

Existe um abismo entre falar de saúde pública e comemorar o dia da exploração sexual. Prostituição é problema social e não emocional. As prostitutas precisam de melhores oportunidades de emprego e não comemoração. Está faltando, agora, uma campanha dizendo que somos muito felizes por sermos enganados pelo governo todos os dias. Pelo andar da carruagem, a qualquer momento um daqueles políticos de Brasília apresenta uma proposta para criar o dia do traficante, o dia do assassino, o dia do estuprador, o dia do presidiário.

Devemos por em pauta muitos assuntos para o desenvolvimento cultural e social do país como o casamento gay, uso de células tronco, liberação da maconha, cotas para negros, diminuição da maioridade penal, impunidade de gestores públicos e políticos, pastores e padrecos na política. Mas, não podemos deixar que esses temas ofusquem os problemas sociais do Brasil.

Mas caro amigo relaxa! A ideia da frustrada campanha usando prostitutas foi boa, apenas mal articulada. Não devemos esquecer que o objetivo central é a prevenção de DSTs. Quando a repercussão é negativa, ninguém assume ninguém quer ser o pai. Aqui no Brasil acontece um fenômeno raro, mas que vem se tornando muito comum: o presidente não sabe, a presidenta não sabe, o ministro não sabe. Ninguém nunca sabe de nada. Nem sei o que estão fazendo lá em Brasília então!

 *Alan Junior de Queiroz é estudante de Comunicação Social - Jornalismo da Faculdade do Norte Pioneiro(Fanorpi).

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Walmor
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9 de junho de 2013 18:53 delete

Amigo Alan, parabéns pelo texto. Te admiro pela tua capacidade de reflexão e pela contribuição para as abordagens de assuntos tão importantes. Em relação à polêmica frase tenho um posicionamento que talvez diverge um pouco do teu. Acredito que a luta histórica das prostitutas é justamente em prol do fim do estigma que se cria sobre a imagem da mulher e da própria prática da prostituição. Entre os estigmas e estereótipos está também aquele que quer "vitimizar" as mulheres prostitutas ao ponto de justificar aquela prática tão mal vista. Por exemplo, sempre ouço assim: "Ah, aquelas que entram nessa vida por falta de opção, até dá pra entender". Gabriela Leite, um dos maiores nomes na defesa da valorização da prostituta no Brasil já afirmou, falta de opção é a menor incidência entre as mulheres que se prostituem, a maior parte delas optam fazer aquilo e tem possibilidades de trocar de trabalho se quiser, mas permanecem. O que Gabriela quer dizer com isso? Primeiro é que dá pra ser feliz sendo prostituta, porque o ser feliz ou não também perpassa por questões bem mais complicadas que é a forma que a sociedade encara determinada prática. Segundo, prostituta não é vítima simplesmente por ser prostituta, uma das lutas do feminismo é poder garantir à mulher a autonomia sobre o próprio corpo, e nesse caso, se prostituir é uma forma de exercer essa autonomia. Não podemos esquecer, é claro (e nesse ponto concordo plenamente como você) que a condição de trabalho da maioria das meninas que fazem programa ainda é ruim e estão muito expostas à violência, mas acho que dá pra ser feliz sendo prostituta sim.

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Walmor
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9 de junho de 2013 18:54 delete Este comentário foi removido pelo autor.
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